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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Calle Capivari 602

foto: Leandro Anton

Após a publicação no Diário Oficial da União, do projeto escrito pela GUAYÍ com a colaboração de moradores do Bairro Cristal, o Quilombo do Sopapo tem no SINTRAJUFE-RS a parceria que faz surgir o primeiro Centro Cultural Comunitário para a Juventude do Cristal. Com a aprovação do Ponto de Cultura no edital do MINC 2005 e a parceria do Sindicato inicia-se em fevereiro de 2006 a elaboração da proposta de adequação e ocupação da casa da Avenida Capivari 602.
O Coletivo Casa Tierra faz seu primeiro projeto. Primeiro passo, apresentar a proposta para as lideranças comunitárias do Cristal, que formariam em janeiro de 2008 o Conselho Gestor Comunitário do Quilombo do Sopapo. A apresentação foi no Clube de Mães do Cristal e um comentário marcou este encontro "estes meninos são loucos, uma casa de terra com telhado de grama, isto é possível?"

A frase de Dona Madalena, então presidente do Clube, quase seria repetida em junho de 2006 quando o projeto foi apresentado para a executiva do SINTRAJUFE, que aprovou as adequações na casa de sua propriedade e se encantou com a proposta de uma nova edificação em técnicas de terra e com um jardim suspenso.
Nos sete anos desde estes encontros o Quilombo do Sopapo abriu as portas em janeiro de 2008, fez seus primeiros cursos de comunicação comunitária, entre eles o de Rádio Comunitária com a Rádio Ipanema Comunitária e nela foi anunciada a inauguração oficial que aconteceria em 16 de abril de 2008 com a presença de Mestre Baptista. São mais de quinze projetos que foram executados desde 2008.
É no final de 2011 que a Fundação Banco do Brasil aceita apoiar um projeto para finalizar o estúdio, ampliar as salas e edificar a sala em paredes de terra e telhado vivo. O que seria uma ampliação da área de convívio em 2006, transformou-se em um espaço para uma Rádio Comunitária em 2012, pois a mesma Fundação Banco do Brasil repassou a Guayí equipamentos para uma rádio.
E maio de 2012 se dá início à construção da sala com o Casa Tierra e mais que a construção este momento raro nos permite abrir um curso de bioconstrução, a Escola de Jovens Bioconstrutores, que durante os três primeiros meses da obra tiveram 5 jovens acompanhando o processo e  fizeram uma primeira formação em bioconstrução.
Foi com esta história que no dia 17 de abril de 2013, durante a 5ª Semana do Quilombo do Sopapo que inauguramos a sala transformando em realidade aquilo que era inimaginável para Dona Madalena. Uma história de continuidade e de memória viva, pois do anúncio de inauguração do Quilombo do Sopapo em 2008 feito na Ipanema Comunitária e da benção de Mestre Baptista em abril de 2008, nesta semana tivemos o debate sobre Rádio Comunitária do Sopapo com a participação da "A Voz do Morro" e a visita da família de Mestre Baptista que ainda não conhecia o Quilombo do Sopapo.
A Sala Viva encontra inspiração no clipe Latinoamerica do Calle 13 que está abaixo e para os leitores de maior fôlego após o clipe há um encantador texto sobre o que significa a construção em terra para a Cultura Viva e o que motivou o Quilombo do Sopapo perseguir desde 2006 este espaço.


Quem quiser assistir o clipe legendado em português clique aqui www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=jW9_mFAGO0E .

Debate sobre rádio comunitária com a Voz do Morro         foto: Douglas Oliveira

Ensaios sobre a simbologia na construção com terra...

Entre os tantos distanciamentos que criamos com a visão de mundo fragmentada dos últimos milênios está a perda da sacralidade da construção. Muito mais do que fazer cálculos, derramar cimentos e empilhar tijolos, a construção de espaços nasce na noite do tempo dos seres humanos onde a consciência de um universo de possibilidades começa a ser percebido.
A construção surge em sincronia com a criação de ferramentas primordiais e o cultivo, em um momento de vida onde a dependência total e plena do ambiente não era questionada, mas onde damos nossos primeiros passos em direção a adaptação diferencial como espécie.
Não tenho dúvidas de que fomos influenciados por outras espécies que já há milênios vinham se aprimorando na arte do construir, sejam elas de convívio social (formigas, cupins) ou não (aves, pequenos mamíferos, etc..). E nesse sentido acredito que o diferencial que desenvolvemos aqui não foi à construção de estruturas de habitação em si, mas a criatividade no que diz respeito a materiais, formas, funções e símbolos. 
foto: Leandro Anton
O movimento da arquitetura bio construída certamente tem cumprido esse função de resgate. Resgate de relações mais saudáveis com o meio, resgate de técnicas e materiais, o resgate das tradições, dos ritos e da reverência ao sagrado. E é justamente sobre as possíveis atuações nestes campos mais sutis que quero abordar.
Independente de que material se use ou o espaço que se proponha, certamente é no espaço do sagrado que tudo começa, é no reino do fogo que encontramos a inspiração e sonhamos com o espírito do espaço. E é ainda no portal do visionário que tecemos os primeiros esboços, transformando a visão em desenho.
foto: Leandro Anton
Mas é no portal da terra que as coisas se materializam e a construção realmente acontece. Em um campo denso a terra se expressa através da matéria e da forma, é no movimento das sensações que escolhemos os materiais e fazemos as “misturas” e os arquétipos do Amante, do Curador e do Artesão começam a ser trabalhados.
É o Amante que através do entusiasmo e a busca pelo sensual escolhe os materiais a serem utilizados. A terra vermelha que traz paixão e vitalidade, o tato do grão de areia certo é a medida do quanto de memória e tradição vai na construção. O toque do Amante também é essencial para amassar o barro, pois esse é um ato de entrega, onde a nossa energia e a energia da terra se fundem em uma só massa, assim como no sexo um corpo se entrega ao outro e as barreiras entre os corpos deixam de existir para o êxtase acontecer.
Na medida da água a sabedoria se expressa no quanto de emoção é necessária para que a liga aconteça. É o Curador que se manifesta buscando os vínculos, a ligação de uma camada na outra, da parede com o reboco, a medicina de fazer com que as partes se transformem no todo.
foto: Douglas Oliveira

Nos acabamentos o Artesão busca a beleza e a estética, alinhando as formas, alisando a superfície com a mão moldando a intereza do espaço, criando uma identidade, um novo significado.
A Medicina do ar também se faz presente no processo de elaboração mental que acompanha todo o processo. Mas principalmente na vontade de trilhar novos caminhos e na determinação de construir novas relações, mais verdadeiras, mais inteiras, mais fraternas. Na comunicação sutil e às vezes silenciosa que acontece durante o trabalho, na troca de experiências de vida, na flexibilidade e leveza necessárias para o convívio coletivo sabendo honrar a preciosa individualidade de cada um. É o aprender a dançar em um pequeno pedaço de lona em cima do barro sem pisar no pé do outro.
foto: Leandro Anton
Na interação dos quatro elementos que a transformação acontece. Onde corpos, mentes, almas e espíritos se reencontram. E se é na união dos quatro elementos que se faz a quinta essência, outros níveis conscienciais também são trabalhados já que a bio construção também permite o reencontro entre gêneros no construir.
foto: Carlos Alberto


foto: Douglas Oliveira
Se nos últimos séculos a sociedade tentou nos convencer de que construção é trabalho pesado e coisa de macho e que o que cabe as mulheres não é o construir, mas o limpar, lavar e passar, as tradições antigas sempre souberam honrar a individualidade e o charme da cada gênero. Na Grécia antiga, era função das mulheres manter acessa a lareira no centro da casa, o fogo sagrado regido por Hestia, a deusa virgem do sagrado, era passado por tochas de mãe para filha no dia do casamento para garantir que, todo lar como espaço que acolhe seria sempre protegido, nutrido e iluminado.
Talvez, a frieza de muitas construções modernas não estejam só relacionados ao uso excessivo de metais, dos desings quadrados e impositivos, mas também pelo pouco envolvimento das mulheres nesse processo. Onde nós que somos as portadoras da essência do criar e acolher, somos distanciadas e taxadas de fracas e incompetentes. 
foto: Carlos Alberto
Pelos princípios em que se baseia e as técnicas que utiliza a bio construção, gera um espaço acolhedor para que homens sensíveis e mulheres fortes se encontrem. Reconhecendo que não somos iguais, que temos formas diferentes de pensar, de sentir, de agir, de trabalhar, de tocar e de nutrir. Mas que o prazer esta justamente na possibilidade de se permitir ser quem se é e se deixar encantar pelo outro encontrando plenitude e complementariedade. 
foto: Leandro Anton
O movimento é continuo e por isso chegar a um fim ou a uma conclusão não é possível. Mas não tenho dúvidas de que a bio construção é um movimento que nos permite ascender na espiral da evolução coletiva curando  ambientes e relações. 

Potira Preiss, maio de 2007. 

Post: Leandro Anton 

Um comentário:

Senda Viva disse...

Isso é o que nos faz viver!